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Exposição de Arte Digital de Carmen Fulle
GALERIA DE ARTE DA BIBLIOTECA CENTRAL DA UNIVERSIDADE DE BRASILIA – UnB

Exposição de Arte Digital de Carmen Fulle

"Vestígios de Leonardo"


AS ALEGORIAS DIGITAIS DE CARMEN FULLE

Existe um elo quase imperceptível entre Leonardo da Vinci (1452-1519) e a série de obras digitais da artista plástica chilena Carmen Fulle. Na exposição que agora inaugura na Galeria de Arte da Biblioteca Central da Universidade de Brasília –Vestígios de Leonardo - trata-se dessa preocupação da representação humana caracterizada pelo universal que possui o individual, revelando os aspectos únicos, inconfundíveis, do perfil anímico e enigmático que encerra a figura no contexto da máquina.

Leonardo tomava conhecimento da Natureza para forjar o retrato humano dentro de um contexto ambiental com sugestões aéreas da paisagem, como podemos apreciar na mais controvertida e famosa de suas obras, a Mona Lisa, por exemplo, ou em Santa Ana, a Virgem e a criança, ambas no Louvre. Toda a arte figurativa da Renascença propugna um humanismo livre que se expressa através do retrato e uma procura da verdade que transcende a realidade.  Leonardo busca a summa em lugar do fragmento casual da Natureza e, ao mesmo tempo, aspira à espiritualização do material, numa forma de captar a realidade para transformá-la e recriá-la, idealizando-a. Assim, maneja os materiais sob a doutrina das proporções para estabelecer um cânone ideal das medidas do corpo, observando os estudos anatômicos que lhe permitam penetrar em suas funções e, particularmente, o jogo dos membros e o processo orgânico dos movimentos, a perfeição do corpo nu. Assim, emerge em suas obras a predileção pelas formas geométricas e estereométricas de composição elementar, como a circunferência, o triângulo, a pirâmide, porém, muito especialmente, a perspectiva lineal, um instrumento que lhe permite dar à representação bidimensional uma aparência tridimensional.

A Renascença, aberta às questões teóricas e experimentais, permite olhares mais audazes da perspectiva, que ampliam o conceito da arte e oferece projeções insuspeitadas para a evolução estilística e passa a enriquecer sua função social e a temática até níveis de abstração: a paisagem como reflexo do estado de ânimo das personagens, a mitologia, a história antiga e a alegoria. A alegoria buscava representar em imagens, idéias e conceitos abstratos, servindo-se da personificação. No caso de Leonardo a alegoria, às vezes, constitui o tema principal, o único objeto através duma figura única, como bem ilustra A Gioconda o outro nome da Mona Lisa, cujas múltiplas interpretações nunca conseguiram decifrar as incógnitas do quadro. 

Esse sentido essencial da obra clássica está na intenção velada ou expressa do mundo digital despregado pela artista plástica do século XXI, Carmen Fulle. Também submersa no mundo experimental, só que da tecnologia virtual, a autora nos conduz a outras especulações  humanísticas mais próprias de nossa época. 

A POESíA DA MáQUINA

O sentido dialógico que surge entre o corpo humano e a máquina na expressão poético-visual dos quadros de Carmen Fulle leva-nos a refletir e sentir a distância que há no olhar interior de uma sensibilidade única, seu olhar, e a que domina na maioria das vidas oprimidas pelo tédio e a invasão da maquinária exógena da mídia.

O diálogo entre o ser e a máquina se nos revela, na obra da artista chilena, numa dimensão endógena, transmigrando o tempo-espaço desde Leonardo até hoje numa projeção da luta ancestral cujo mistério o computador (por sorte!) não consegue resolver. O paradoxo surge quando a máquina, produto da inteligência, da criatividade humana, nos devolve um resultado imprevisível de linguagens, imagens, textos, que a autora manipula com seu conhecimento da técnica e da necessidade de expressar algo que vai além de um ato puramente racional. Pergunta-se até que ponto o ser humano maneja e controla a máquina e até que ponto é a máquina que produz resultados surpreendentes de beleza, verdade, justiça, amor, dor ou morte.

Penso em tudo isso quando vejo e faço uma leitura do que mostram em seus diversos níveis, as imagens digitais, sintetizando fotografia, sentido da cor, superposição de planos, enlace dos diferentes universos, resultado do apaixonante jogo entre a artista e seus recursos digitais. Ela escreve que usa "uma mistura de técnicas: no revelado dos negativos (as fotos com grão rebentado, corpos neste caso) e logo no tratamento que lhes dou no computador onde misturo imagens para obter o que quero dizer ou me surge dizer ou não sei dizer, e então são as imagens as que expressam mais fortemente o que eu imaginava".

Todas essas coisas, as que quer dizer, as que não sabe dizer, as que lhe devolve a máquina, constituem o mistério de seus outros "eus" fascinantes, lançados no espaço atemporal da criação. A máquina, o computador, nesse jogo imprevisível, qual escritura automática do ato surrealista virtual, lhe devolve os conteúdos que a habitam a partir da memória ancestral, do inconsciente coletivo. Como todo grande artista.

Elga Pérez-Laborde (UnB)

Alguns dos prêmios recebidos pela artista:

1985: Pelo seu documentário "Smadhi, Meditação do Poeta", premiado pela Unesco com o International Fund for the Promotion of Culture.

1988: Salón Fotop, Primeiro Prêmio Modelos e Menção Honrosa de Efeitos Especiais.

1990: Salón Fotop, Primeiro Prêmio Modelos e Segundo Prêmio Bodegones (Natureza Morta).

1992: "Gran Premio Salón" do Salão Latino Americano de Fotografia Publicitária, Centro de Extensão Pontifica Universidade Católica do Chile.




 
 

 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
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